señal de humo

...

1 (sentarse a mirar la lluvia)



-¿qué estabas haciendo?
-estaba mirando la lluvia
por la ventana
-seguramente lloverá mucho
porque las gotas forman burbujas
cuando caen

ves cómo algo sencillo
algo que ha estado desde siempre
puede volvernos más humanos

y eso porque alguna vez fuimos lluvia
(de esto los niños tendrán más memoria que yo)

y porque de alguna manera la lluvia
nos recuerda el andar sosegado
que perdimos







2 (principios)



hoy soy inmune a todos
los abandonos
hoy
soy permeable a todos
los silencios

pinto castillos en esta hoja de papel
vuelvo
a mi piedra fundamental
a mi casita del arbol
a mi reloj de arena

hoy soy un niño en su siesta de barro
en esta hoja tengo los pies
sucios de tanto correr
por mi patio universo

acá vengo a izar
mi bandera
acá vengo a dar
mi señal de humo

nuestro mundo siempre fue
un pecho de leche y una mirada
y sólo eso

1 comentario:

  1. AÇÚCAR

    Meu vô Laco era branco e leve, sentado à porta. Respirava baixo. Tinha nos olhos resto de espanto: era cego. E no cegar sequer sabia a gente, na cadeira anoitecia, quieto, quieto, entre galinhas e sapos. Havia escuro, mas no rosto do vô as duas velas, até minha mãe, sua filha, soprá-las com voz e braço, ternos.

    Era plácido; inimigo do vento. Às vezes quis falar-lhe, dizer verso, dizer: vô Laco, o senhor lembra que são bonitas as galinhas? Dizer: vozinho, quer que eu te conte essa figura de revista? Não disse. Meu vô Laco era perecível. A gente ficava sem jeito de amá-lo.

    Cheirava morno. Vestia casaco, seu único, de linho marrom. Casaco de baús. Nos bolsos, guardava as mãos, muitíssimo. Muitíssimo ruminou segredo na boca vazia de dentes. Mastigava - os lábios cerrados, beija-flor de asa - algum caramelo eterno.

    Gostava, sim, de caramelos. Mas o doutor lhe proibira açúcar: a filha escondera em terríveis potes as doçuras todas da casa. Não raro a gente o via na cozinha a tatear, cheirar, derrubar xícaras. Sumiam nacos de rapadura e chocolate, fatias de bolo - que coisa feia, o senhor não tem vergonha? E o vô sorria, desentendido.

    Uma vez me chamou: Julinho. Então ele me sabia? Tirou do bolso chicle de hortelã. O sol, monótono, se punha. Houve barulho: de grilo, rádio, cão. Fiquei assim, com ele, ao pé da porta - silencioso, diminuto, a estourar bolas.

    Um velho sentado em cadeira preenche os quintais do mundo. Não há não vê-lo; não pensá-lo. Um velho vive porque a gente o vê, a gente pensa: quando ele for, o que será? Pois se ele tem a idade do tempo. A gente ri do que ele fala, diz: está caduco. Um velho atravessa o dia muito só, lembrando, navegante de horas. Leva a cadeira ao quintal, de manhã; à noite a recolhe. Entrementes, o nada supremo, as cozinhas.

    Não disse: quer um gole do meu guaraná? Que eu te faça chapéu de jornal? Ele era pouso pros aviões da gente - gigante doce, inerte.

    Decerto, entrementes, mastigando, quis dilúvio, quis incêndio, morreu, morreu - sequíssimo e intacto. E já não era vô Laco; era o horror das cadeiras sem velho.

    Foi velado, sobre a mesa. Vieram parentes, com choro. Lá fora, o burburinho das aves. A filha penteara-lhe o cabelo, pusera-lhe sapatos, um casaco outro, novo. Eu sério, homenzinho, as pestanas inquietas. Amei-o com atraso.

    O que é de um morto esconde-se em armário, atrás de porta. É um palpitar no escuro. A gente o liberta, enfim - e está mofado.

    Do vô, era o casaco. Pendia (tão seu único, tão marrom) de algum cabide firme. E vi - que ditosas, achadoras de tesouro, invadiam-lhe os bolsos mil abelhas e formigas...

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